Desenvolvido a partir de pesquisas militares nos anos 1980, o Da Vinci se tornou o sistema de cirurgia robótica mais utilizado no mundo, com mais de 15 milhões de procedimentos realizados

Por Cotidiano Alagoas

Sistema é utilizado em uma ampla variedade de procedimentos cirúrgicos – Imagem: Cotidiano Alagoas

Imagine um cirurgião realizando uma sutura delicada dentro de uma garrafa, costurando a casca de uma uva com menos de um centímetro de diâmetro, sem tocar nas paredes do recipiente. Esse teste, realizado por profissionais treinados para demonstrar a precisão do sistema Da Vinci, não é apenas um truque de habilidade. É uma demonstração concreta do que a tecnologia mais avançada da cirurgia moderna é capaz de fazer dentro do corpo humano. O robô cirúrgico Da Vinci não é o futuro da medicina, é o presente, e já transformou a forma como milhões de pessoas passaram por cirurgias complexas nos últimos vinte anos.

De onde veio o Da Vinci

A origem do sistema Da Vinci não está nos laboratórios de um hospital, mas sim nas pesquisas militares americanas. Na década de 1980, a NASA e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos financiaram o desenvolvimento de tecnologia robótica para um objetivo bastante específico: permitir que cirurgiões operassem soldados feridos em campos de batalha à distância, sem precisar estar fisicamente presentes. O projeto evoluiu muito além dessa proposta inicial e, em 1995, foi fundada a empresa Intuitive Surgical, criada especificamente para desenvolver e comercializar o que se tornaria o Da Vinci Surgical System.

O nome é uma homenagem a Leonardo da Vinci, o gênio renascentista que foi simultaneamente artista, anatomista e inventor, e que é considerado o precursor do conceito de robô ao desenhar, no século XV, um cavaleiro mecânico articulado capaz de reproduzir movimentos humanos. Em julho de 2000, após anos de testes e desenvolvimento, o sistema recebeu a aprovação da FDA (a agência regulatória americana equivalente à Anvisa) para uso em cirurgias em humanos, e a era da cirurgia robótica assistida teve início oficial.

O que é o Da Vinci e o que ele não é

Antes de qualquer coisa, é fundamental desfazer o maior equívoco que existe sobre o Da Vinci: ele não é um robô autônomo. O sistema não toma decisões, não planeja movimentos e não opera sozinho. Cada gesto realizado pelos braços robóticos é uma tradução em tempo real do movimento das mãos do cirurgião, que permanece no controle absoluto de toda a operação, do início ao fim. O Da Vinci é, em essência, uma extensão tecnológica das mãos do médico, com capacidades que as mãos humanas, por suas limitações naturais, jamais conseguiriam alcançar sozinhas.

O sistema amplia os movimentos do cirurgião, elimina tremores involuntários das mãos, oferece uma visão tridimensional ampliada em até dez vezes em relação ao que o olho humano enxerga e permite que os instrumentos se movam em ângulos e direções que os dedos humanos são incapazes de reproduzir. É uma parceria entre a habilidade humana e a precisão da máquina.

Os três componentes do sistema

O Da Vinci é formado por três elementos que trabalham de forma integrada e sincronizada.

O console do cirurgião é onde o médico se posiciona durante toda a operação. Sentado confortavelmente, ele insere as mãos em controles manuais altamente sensíveis chamados de masters, que captam cada movimento dos dedos e das mãos com precisão milimétrica. O console oferece uma visão tridimensional imersiva do campo cirúrgico, ampliada e em alta definição, criando a sensação de que o cirurgião está literalmente dentro do corpo do paciente. Pedais nos pés completam o painel de controle, permitindo ajustes de câmera e configurações do sistema sem tirar as mãos dos controles.

O carrinho do paciente é o robô propriamente dito, posicionado ao lado da mesa cirúrgica onde o paciente está deitado. É formado por quatro braços robóticos altamente articulados: um deles carrega a câmera endoscópica tridimensional, e os outros três sustentam os instrumentos cirúrgicos que realizam os cortes, as suturas e as manipulações de tecidos. As incisões feitas no corpo do paciente para inserir esses instrumentos são minúsculas, geralmente entre um e dois centímetros cada, o que representa uma diferença radical em relação às grandes aberturas exigidas pela cirurgia convencional.

Imagem: Cotidiano Alagoas

O carrinho de visão é o sistema central de processamento de imagem, responsável pela comunicação entre os componentes. Possui um monitor touchscreen que transmite as imagens da cirurgia para toda a equipe cirúrgica presente na sala, mantendo todos informados sobre o andamento do procedimento em tempo real.

O segredo dos instrumentos EndoWrist

Um dos elementos mais impressionantes do sistema Da Vinci são os instrumentos EndoWrist, acoplados nos braços robóticos do carrinho do paciente. Desenvolvidos especificamente para a cirurgia robótica, esses instrumentos são modelados a partir da anatomia do pulso humano, mas com uma vantagem extraordinária: eles têm amplitude de movimento superior à da mão humana, com articulação em múltiplos eixos, e conseguem articular em direções que os dedos naturalmente não alcançam.

Cada movimento realizado pelo cirurgião no console é traduzido pelos EndoWrist em micromovimentos articulados dentro do corpo do paciente, com filtragem automática dos tremores involuntários das mãos e amplificação da precisão. O resultado é uma execução extremamente delicada e controlada de manobras que, em uma cirurgia convencional, exigiriam muito mais espaço, instrumentos maiores e cortes mais amplos.

Para que tipo de cirurgia o Da Vinci é usado

O sistema é utilizado em uma ampla variedade de procedimentos cirúrgicos. Na urologia, é amplamente empregado em prostatectomias (remoção da próstata), nefrectomias (cirurgias no rim) e cistectomias (bexiga). Na ginecologia, é usado em histerectomias e no tratamento de endometriose. Na oncologia, auxilia na remoção de tumores em órgãos internos com maior precisão e menor risco de danos aos tecidos vizinhos saudáveis. Cirurgias cardíacas, de cabeça e pescoço e no aparelho digestivo também são realizadas com assistência do sistema.

A principal vantagem em todos esses casos é a mesma: menor trauma para o paciente. Como as incisões são muito pequenas, o organismo se recupera mais rapidamente, o tempo de internação é reduzido, a perda de sangue durante o procedimento é significativamente menor e o paciente sente menos dor no pós-operatório, o que diminui a dependência de analgésicos fortes na recuperação.

O Da Vinci no Brasil

A cirurgia robótica chegou ao Brasil em 2008 e cresceu de forma constante desde então. O país já realiza aproximadamente 40 mil procedimentos robóticos por ano, com estimativa de crescimento de 20% ao ano, segundo dados do A.C.Camargo Cancer Center, um dos centros de referência em cirurgia oncológica robótica na América Latina. O sistema está presente em hospitais das principais capitais brasileiras, com maior concentração em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, mas vem se expandindo para cidades do interior e para regiões como o Sul e o Centro-Oeste.

Um ponto importante para o paciente brasileiro: a cirurgia robótica não está incluída no Rol de Procedimentos obrigatórios da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), o que significa que os planos de saúde não são obrigados a cobrir a parte robótica do procedimento. Em muitos casos, o paciente pode ter a cirurgia coberta pelo plano, mas ser cobrado pela operadora um valor adicional referente ao uso do robô. Esse cenário tem sido alvo de disputas judiciais, e os tribunais têm decidido de forma variada dependendo do caso clínico e do tipo de contrato.

Foto: Santa Casa de Maceió

Em Maceió

A Santa Casa de Maceió se tornou pioneira em Alagoas ao adquirir, em fevereiro de 2023, o primeiro robô cirúrgico do estado, o Da Vinci. Um ano e nove meses após o início do Programa de Cirurgia Robótica da instituição, o hospital alcançou a marca de mais de 400 procedimentos realizados com a ferramenta que ampliou as opções de tratamento minimamente invasivos para pacientes da região Nordeste.

Foto: Santa Casa de Maceió

Quanto custa um sistema Da Vinci

O investimento em um sistema Da Vinci é expressivo. Dependendo do modelo e da configuração, o preço de um equipamento novo varia entre 1,5 e 2,5 milhões de dólares, o equivalente a entre R$ 8 milhões e R$ 14 milhões na cotação atual. Além do custo de aquisição, os hospitais pagam contratos de manutenção anuais com a Intuitive Surgical e precisam comprar os instrumentos EndoWrist separadamente, já que cada um deles tem um número limitado de usos antes de precisar ser substituído. Esse conjunto de custos explica por que a cirurgia robótica ainda tem um valor significativamente mais alto para o paciente do que a cirurgia convencional ou laparoscópica.

As gerações do Da Vinci e o que vem por aí

O sistema passou por várias gerações desde o lançamento comercial em 2000. O modelo original evoluiu para o Da Vinci S (2006), depois o Si (2009), o Xi (2014) e, mais recentemente, o Da Vinci 5, lançado em 2024, que incorpora inteligência artificial para auxiliar no planejamento dos procedimentos e oferece feedback de força, permitindo que o cirurgião sinta a resistência dos tecidos através do console, algo inédito em sistemas anteriores. Mundialmente, mais de 15 milhões de procedimentos já foram realizados com o sistema, em mais de 5 mil hospitais distribuídos por dezenas de países.

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