Violência, educação precária e desigualdade marcam o retrato social do destino turístico mais famoso de Alagoas

Por Cotidiano Alagoas

Maragogi é um dos principais pontos turísticos de Alagoas – Reprodução

Maragogi é conhecida no Brasil e no mundo pelas suas piscinas naturais, pelo mar cristalino e por ser um dos destinos turísticos mais procurados do Nordeste. Mas o Índice de Progresso Social 2026 revela uma face muito diferente da cidade para quem vive nela: com 55,11 pontos, Maragogi ocupa a 83ª posição entre os 102 municípios alagoanos avaliados, bem abaixo da média estadual de 57,39. Para uma cidade com PIB per capita de R$ 36.668, um dos mais elevados do estado, o resultado é, no mínimo, desconcertante.


O turismo enriquece, mas não inclui

O contraste entre a riqueza gerada pelo turismo e a qualidade de vida da população local é o dado mais revelador do IPS de Maragogi. Com 33.269 habitantes e uma economia aquecida pelo fluxo turístico, a cidade tem condições financeiras acima da média alagoana. No entanto, essa riqueza claramente não chega a quem mora lá.

A dimensão de Oportunidades marcou apenas 41,13, a que mais pesa negativamente no índice. Os Direitos Individuais ficaram em 29,46, com acesso a programas de direitos humanos de apenas 4,0. A Inclusão Social marcou 55,81, com paridade de gênero na Câmara Municipal de apenas 0,31, um dos índices mais baixos de representação feminina na política local. O Acesso à Educação Superior foi de 31,85, e a nota mediana no Enem chegou a apenas 493,9 pontos.


Violência: o dado mais alarmante

A Segurança Pessoal de Maragogi foi de 25,87 — um número gravíssimo, entre os piores do estado. Os indicadores por trás dessa nota pintam um quadro de violência sistêmica: 63,59 homicídios por 100 mil habitantes, 155,56 assassinatos de jovens — um dos mais altos de todo o ranking alagoano — e 120,95 registros de violência contra mulheres.

O dado de Violência Contra Negros foi de 192,21 — extremamente elevado e que expõe uma dimensão racial da violência em Maragogi que não pode ser ignorada. As Mortes por Acidentes de Transporte também chamam atenção: 18,4 — um reflexo provável do intenso fluxo de veículos gerado pelo turismo em uma cidade sem infraestrutura viária adequada.


Educação abaixo do esperado

Na educação, os números reforçam o quadro de exclusão. O Ideb do Ensino Fundamental foi de apenas 3,72 — muito abaixo do desejável e inferior ao já preocupante resultado de Rio Largo (4,26). A Distorção Idade-Série no Ensino Médio chegou a 37,16%, e a Evasão no Ensino Médio foi de 10,7% — indicando que uma parcela significativa dos jovens abandona a escola antes de concluir a educação básica. A Gravidez na Adolescência foi de 21,64% — o dado mais alto entre as cidades analisadas até agora, e que se conecta diretamente ao abandono escolar e à falta de oportunidades.


O que Maragogi faz bem

Nem tudo é negativo. Maragogi tem um dado notável em saneamento: o Esgotamento Sanitário Adequado chegou a 92,38% — um índice excelente para os padrões alagoanos e que supera até cidades mais bem posicionadas no ranking. A Cobertura Vacinal foi de 87,26%, e a Mortalidade Infantil até 5 anos foi de 15,58 — um número relativamente controlado. O Acesso à Informação e Comunicação marcou 75,51, com qualidade de internet móvel de 95,42.


Saúde e meio ambiente: sinais mistos

Em Saúde e Bem-estar, Maragogi marcou 48,32 — abaixo da média. A Expectativa de Vida foi de apenas 70,96 anos — a mais baixa entre as cidades analisadas neste IPS até agora. O consumo de ultraprocessados foi de 81,42% e a obesidade atingiu 26,4% da população.

No meio ambiente, a cidade apresenta desafios relevantes para um destino turístico que vende a natureza como produto: os Focos de Calor foram de 16,82 e o Índice de Vulnerabilidade Climática (IVCM) foi de 4,61 — acima da média — sinalizando que Maragogi está exposta a riscos climáticos que podem ameaçar tanto a população quanto o próprio turismo no futuro.


O retrato que o cartão-postal esconde

Maragogi é, para o turista, um paraíso. Para quem nasce e vive lá, o IPS 2026 mostra uma realidade bem diferente: violência intensa, educação frágil, poucas oportunidades e uma riqueza que circula sem se distribuir. Com 83ª posição no ranking estadual e nota abaixo da média de Alagoas — um dos estados mais pobres do Brasil — Maragogi tem um desafio duplo: sustentar o crescimento turístico e garantir que ele se converta em progresso real para sua população.

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