Prática foi revelada por documentos judiciais e relatos de livreiros; caso envolvendo a Anthropic expôs um projeto secreto com meta de “digitalizar destrutivamente todos os livros do mundo”
Por Cotidiano Alagoas

O que parecia rumor nas redes sociais se confirmou por documentos judiciais e investigações jornalísticas: grandes empresas de inteligência artificial estão comprando livros em escala industrial, muitas vezes raros e com poucos exemplares no mundo, digitalizando seu conteúdo com máquinas de alta velocidade e depois destruindo os originais. A prática, que viralizou globalmente nos últimos dias de julho de 2026, levanta questões sérias sobre preservação cultural, direito autoral e a corrida desenfreada das big techs por dados de treinamento.
O processo funciona da seguinte forma: máquinas cortam a lombada dos livros, digitalizam cada página em alta resolução e, em seguida, os exemplares físicos são fragmentados ou reciclados. A destruição não é acidental. É deliberada e tem respaldo jurídico nos Estados Unidos. Em junho de 2025, o juiz federal William Alsup, da Califórnia, decidiu no caso Bartz v. Anthropic que digitalizar um livro comprado legalmente e depois destruir o original é considerado “fair use” (uso legítimo), justamente porque eliminar o físico garante que apenas uma cópia permaneça em circulação. Essa decisão se tornou o alicerce legal para que outras empresas adotassem o mesmo modelo em larga escala.
A razão pela qual essas empresas preferem livros físicos, especialmente os publicados antes de 2022, vai além da questão jurídica. Com a explosão da inteligência artificial generativa, a internet foi inundada por conteúdo produzido por máquinas, o que os especialistas chamam de “AI slop”. Esse tipo de texto é considerado contaminante para o treinamento de novos modelos, pois alimenta a IA com material já gerado por IA, criando um ciclo de degradação da qualidade. Livros anteriores à era dos grandes modelos de linguagem representam, portanto, uma fonte de texto humano puro, denso e de alta qualidade, o que os torna extremamente valiosos e disputados.
No centro do escândalo está a Anthropic, empresa americana criadora do modelo Claude. Documentos judiciais revelaram a existência do chamado Projeto Panamá, uma operação interna sigilosa cujo objetivo declarado em documento interno era “digitalizar destrutivamente todos os livros do mundo”. O mesmo documento orientava os funcionários a não mencionar o projeto publicamente e a evitar qualquer referência a ele fora da empresa. Para executar a operação, a Anthropic contratou o ex-chefe de parcerias do Google Books e adquiriu volumes de livreiros como Better World Books e World of Books.
Antes de partir para compras legais, porém, a empresa trilhou um caminho mais sombrio. Segundo a decisão do juiz Alsup, um dos cofundadores da Anthropic baixou pessoalmente milhões de livros pirateados de plataformas ilegais em 2021. O tribunal concluiu que a empresa piratou mais de sete milhões de cópias de livros no total. O magistrado registrou que a companhia tinha meios legítimos para obter o material, mas optou pela pirataria para evitar o que o próprio CEO descreveu como burocracia jurídica e empresarial. A parte referente à pirataria foi encerrada com um acordo de 1,5 bilhão de dólares, sem admissão de culpa.
A intermediária que facilita essas operações para diversas empresas do setor é a ISBNdb, plataforma que mantém uma base de dados de livros e passou a atuar como corretora de aquisições em volume para clientes de inteligência artificial. A empresa oferece pedidos de até um milhão de livros por vez e assina acordos de confidencialidade para proteger a identidade dos compradores, o que dificulta saber exatamente quais empresas estão por trás das compras.
O impacto sobre o mercado de livros raros é concreto. Um livreiro ouvido pelo portal 404 Media relatou que, em abril de 2026, passou de vender no máximo 20 livros por semana para centenas de exemplares, sem qualquer campanha ou sazonalidade que justificasse o salto. Ele afirmou ter quase certeza de que os compradores são laboratórios de inteligência artificial, algo que deduz pelo perfil aleatório dos títulos solicitados e pelo fato de todos possuírem ISBN. O mesmo livreiro admitiu ter sentimentos conflitantes: financeiramente, as vendas ajudam a girar um estoque parado, mas a perspectiva de que livros raros, com poucos exemplares no mundo, sejam destruídos após a digitalização o incomoda profundamente. “Não gosto da destinação final e não gosto que livros incomuns estejam sendo destruídos”, disse ele à publicação.
O fenômeno não se limita aos Estados Unidos. Livreiros na Holanda também relataram um aumento incomum em pedidos em massa de títulos obscuros, com perfil semelhante ao descrito pelos vendedores americanos, o que indica que a prática tem alcance internacional.
A reação do público nas redes sociais foi de indignação. Muitos usuários compararam a destruição sistemática de livros físicos ao romance “1984”, de George Orwell, no qual um governo totalitário apaga e reescreve registros históricos para controlar a versão oficial da realidade. A metáfora ganhou força especialmente porque o Projeto Panamá da Anthropic foi mantido em sigilo justamente para evitar o desgaste de imagem associado à destruição de livros em escala, conforme admitido pela própria empresa em documentos que vieram à tona durante o processo judicial.
Do ponto de vista jurídico, a decisão americana não encerra o debate. A legislação de direito autoral varia significativamente entre países, e o que é considerado “fair use” nos Estados Unidos pode não ter o mesmo tratamento legal em outras jurisdições. A questão da preservação cultural também permanece sem resposta: uma vez destruído o último exemplar físico de uma obra rara, nenhuma versão digital substitui o objeto histórico original.












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