A resposta é mais complexa do que um simples sim ou não. Especialistas explicam que a genética influencia o risco, mas raramente é a causa direta da doença que afeta 1,2 milhão de brasileiros
Por Cotidiano Alagoas

Essa é uma das perguntas mais frequentes entre famílias que enfrentam o diagnóstico de Alzheimer: a doença passa de pais para filhos? A resposta científica é nuançada. Existem, na verdade, duas formas distintas da doença e a genética desempenha papéis completamente diferentes em cada uma delas.
A forma rara: quando a genética determina a doença
Existe uma variante do Alzheimer chamada forma familiar, responsável por apenas cerca de 1% do total de casos. Nessa forma, mutações em genes específicos seguem um padrão de transmissão autossômica dominante, o que significa que, se um dos pais carrega a mutação, cada filho tem 50% de chance de herdá-la. Quando isso ocorre, a probabilidade de a pessoa desenvolver a doença chega a um patamar entre 92% e 100%, geralmente entre os 40 e os 60 anos de idade, o chamado Alzheimer de início precoce.
Essa forma é rara, mas grave: entre 35% e 60% dos pacientes com Alzheimer precoce têm ao menos um familiar de primeiro grau também afetado.
A forma mais comum: a genética como fator de risco, não como destino
A grande maioria dos casos, mais de 90%, pertence à chamada forma esporádica, que surge geralmente após os 65 anos e não segue um padrão hereditário direto. Nesses casos, segundo especialistas, apenas cerca de 5% têm origem fortemente hereditária.
Aqui entra o gene mais estudado em relação ao Alzheimer: a Apolipoproteína E (APOE), localizada no cromossomo 19. Esse gene existe em três variantes: 2, 3 e 4. Pessoas que carregam a variante 4, especialmente em dose dupla, têm risco aumentado de desenvolver a doença mais precocemente. Mas é fundamental entender uma informação que os especialistas reforçam: ter esse gene não é uma sentença. Metade das pessoas com 85 anos que possuem duas cópias da variante 4 nunca desenvolveu sintomas da doença.
Como explica a literatura médica, o Alzheimer esporádico é uma condição poligênica, várias regiões genéticas estão envolvidas, e nenhuma isoladamente determina o surgimento da doença. A genética nesse cenário funciona como um fator que aumenta a probabilidade, não como uma causa direta.
O que realmente determina o risco
Ter um pai, mãe ou irmão com Alzheimer aumenta a chance de desenvolver a doença em comparação a quem não tem histórico familiar e esse risco cresce ainda mais quando há mais de um parente de primeiro grau afetado. Ainda assim, o histórico familiar não é necessário para que alguém desenvolva Alzheimer, e ter esse histórico não significa que a doença vai necessariamente aparecer.
O fator de risco mais relevante, segundo a Organização Mundial da Saúde, continua sendo o avanço da idade. Mas o estilo de vida tem peso real: atividade física regular, controle de pressão arterial e diabetes, estímulo cognitivo, sono de qualidade e vida social ativa estão entre os hábitos associados à redução do risco, mesmo em pessoas com predisposição genética.
Os números da doença no Brasil
O Alzheimer é a causa mais comum de demência no mundo, respondendo por 60% a 70% dos diagnósticos. No Brasil, estima-se que 1,2 milhão de pessoas vivam com a doença, com cerca de 100 mil novos casos diagnosticados a cada ano. O Relatório Nacional sobre Demência de 2025, do Ministério da Saúde, aponta que 8,5% da população acima de 60 anos vive com algum tipo de demência (mais de 2 milhões de pessoas). A Organização Mundial da Saúde projeta que os casos globais de Alzheimer podem dobrar ou até triplicar até 2050, impulsionados pelo envelhecimento da população mundial.
Sintomas e diagnóstico precoce
O primeiro sinal costuma ser a dificuldade em lembrar informações recém-aprendidas (a chamada memória recente). Com a progressão da doença, surgem desorientação, mudanças de humor, dificuldade em reconhecer pessoas próximas e, eventualmente, perda de autonomia para atividades básicas do dia a dia.
Um equívoco comum é atribuir esses sintomas ao envelhecimento natural. Segundo o entendimento médico atual, alterações de memória significativas não são causadas pela idade avançada isoladamente e merecem avaliação médica o quanto antes. O diagnóstico precoce é apontado por especialistas como o fator mais importante para retardar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida.
Tratamento: controle, não cura
Até o momento, não existe cura para o Alzheimer. O Sistema Único de Saúde oferece tratamento medicamentoso em todas as fases da doença, por meio de protocolos clínicos do Ministério da Saúde. Os medicamentos disponíveis não interrompem a progressão da doença, mas ajudam a controlar os sintomas e retardar seu avanço, especialmente quando o tratamento começa nas fases iniciais.
O acompanhamento multiprofissional — envolvendo neurologista, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta e suporte psicológico tanto para o paciente quanto para os familiares — é considerado essencial em todas as etapas da doença.












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