Unidade construída no bairro Cidade Universitária atenderá até 600 crianças e integra o Plano de Ações Sociourbanísticas voltado à reparação do desastre causado pela mineração de sal-gema em Maceió
Por redação com assessoria do MPF

Enquanto as crianças brincavam no playground recém-inaugurado, depois de já terem feito o lanche da tarde, uma mãe acompanhava a movimentação com um sorriso de quem via ali uma nova oportunidade para a família. Moradora da região, ela levou os filhos para conhecer o Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Rosaly Leão Gomes durante a cerimônia de entrega da unidade, realizada na segunda-feira (9), no bairro Cidade Universitária, em Maceió.
Entre os filhos que corriam pelo espaço, apenas a caçula estudará no novo CMEI — e a expectativa é grande. Aos cinco anos, ela irá frequentar a escola pela primeira vez.
Segundo a mãe, até agora não havia conseguido vaga em nenhuma das unidades de educação infantil próximas de casa. Com a inauguração do novo equipamento, localizado a poucos metros de onde mora, a filha finalmente terá acesso ao ensino infantil.
A cena ajuda a dimensionar o impacto social da nova unidade educacional, construída pela Braskem como parte do Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS), previsto no acordo socioambiental firmado com o Ministério Público Federal (MPF), com participação do Ministério Público do Estado de Alagoas (MP/AL) e adesão do Município de Maceió, para a reparação dos danos provocados pela exploração de sal-gema na capital alagoana.
Localizado no Residencial Novo Jardim — área que recebeu grande número de famílias que precisaram deixar suas casas em razão do afundamento do solo — o CMEI tem capacidade para atender até 600 crianças de 4 meses a 5 anos e 11 meses de idade, em regime gratuito, integral e bilíngue. As atividades educacionais começam nesta terça-feira (10).
Participaram da entrega as procuradoras da República Julia Cadete, Juliana Câmara e Roberta Bomfim, que integram o grupo de trabalho do MPF responsável pelo acompanhamento do Caso Braskem em Alagoas e também esteve presente a procuradora-chefe substituta da Procuradoria da República em Alagoas. O evento reuniu moradores da região, lideranças das comunidades atingidas, trabalhadores do equipamento, representantes da Secretaria Municipal de Educação, da Braskem e da empresa Diagonal.
Para a procuradora da República Roberta Bomfim, a entrega do equipamento público representa um avanço concreto na melhoria da qualidade de vida das famílias, em especial para as mães que vivem na região. “Um equipamento como este tem impacto direto no cotidiano das famílias. Quando os pais sabem que seus filhos estão em um espaço seguro, acolhedor e com educação de qualidade, podem se dedicar ao trabalho e ao desenvolvimento econômico da família com mais tranquilidade”, destacou.
A procuradora da República Julia Cadete ressaltou a qualidade da estrutura entregue à população. “A unidade impressiona pela estrutura: salas amplas e climatizadas, berçário, área externa com playground e campinhos, grandes espaços de circulação, auditório para quase 200 pessoas, além de refeitório e cozinha bem equipados. É um conjunto pensado para oferecer condições adequadas de desenvolvimento às crianças. Esperamos que toda a população do entorno possa se beneficiar desse equipamento”, afirmou.
Já a procuradora da República Juliana Câmara destacou o significado simbólico da entrega no contexto de um desastre que marcou profundamente a cidade. “Temos consciência de que nada apaga o trauma coletivo vivido por milhares de famílias. Mas é motivo de orgulho acompanhar a construção de um legado positivo para a cidade e para as próximas gerações, fruto de um processo de responsabilização que busca transformar um episódio tão doloroso em oportunidades de reconstrução social”, pontuou.
A cerimônia de entrega ao Município de Maceió também contou com apresentações culturais conduzidas por artistas e grupos ligados a comunidades atingidas pelo afundamento do solo, todos abrangidos pelo Programa de Apoio Cultural, também proporcionado pelo PAS. O mestre de capoeira do bairro Bom Parto, conhecido como Mestre Veneno, conduziu atividades culturais durante o evento, assim como o artista popular Pierre, bonequeiro que precisou sair do bairro do Pinheiro. Também participaram os grupos Los Coquitos e Coco Pau de Arara, cujos integrantes também foram impactados pelo desastre socioambiental que atingiu diversos bairros de Maceió.
Outro destaque foi o buffet do evento, preparado por mulheres que participaram de oficinas de culinária promovidas no âmbito do PAS, no eixo de Apoio Cultural à comunidade. As cozinheiras são provenientes de comunidades da Vila Saem, Flexal, Bom Parto, Chã de Bebedouro e Chã da Jaqueira, territórios que também sofreram impactos diretos ou indiretos do desastre e que vêm sendo contemplados por iniciativas voltadas ao fortalecimento da economia local e à reconstrução do tecido social.
Estrutura da unidade
Com cerca de 3,7 mil metros quadrados de área construída, o CMEI Rosaly Leão Gomes conta com salas de aula e leitura, berçário, refeitório, áreas externas com pátio sombreado, jardins, brinquedos, quadra esportiva e minipista de corrida. A unidade dispõe ainda de aproximadamente 500 itens de mobiliário, equipamentos eletrônicos e utensílios diversos.
Entre os diferenciais da estrutura estão espaços destinados a atendimento médico e odontológico, além de sala de vacinação e um pequeno salão de beleza, para corte de cabelo infantil, todos completamente equipados. Também foram implantados ambientes voltados a atividades culturais e uma horta educativa.
Reparação sociourbanística
A obra integra o Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS), um dos eixos do acordo socioambiental firmado em 2020 entre o MPF e a Braskem para enfrentar as consequências do desastre causado pela exploração de sal-gema em Maceió.
O PAS reúne mais de 40 iniciativas destinadas à reparação, mitigação e compensação dos impactos causados pela desocupação dos bairros do Pinheiro, Bebedouro, Mutange, Bom Parto e Farol nas dinâmicas sociais e urbanas de Maceió. Parte das ações estão sendo executadas pela Braskem; outras, pelo Município de Maceió.
O plano está organizado em quatro linhas de atuação: políticas sociais e redução de vulnerabilidades; atividade econômica, trabalho e renda; qualificação urbana e ambiental; e preservação da cultura e memória.
Dentre as ações já concluídas, estão a entrega do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Emy Geylyane Oliveira Santos, que funciona em um edifício histórico restaurado e adaptado no bairro do Bebedouro, e a realização do inventário do patrimônio cultural imaterial (IPCI).
Já nas ações em andamento estão a construção do espaço multiuso Bom Parto e do CAPS AD III – Cidade Universitária; a execução do Projeto de Atualização Técnica em Primeira Infância e do Projeto de Fortalecimento da Atenção Psicossocial; a implantação de CMEI no bairro Ponta Grossa, além do Programa de Apoio Cultural e do Edital Cultura em
Movimento.
Essas iniciativas buscam fortalecer a infraestrutura urbana e contribuir para a reconstrução do tecido social impactado pelo desastre, que provocou a retirada de milhares de famílias de suas casas e alterou profundamente a dinâmica de diversos bairros da capital alagoana.










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