Em 11 de outubro de 1996, o Brasil perdia, aos 36 anos de idade, um dos maiores poetas da música; três décadas depois, as canções da Legião Urbana continuam sendo trilha sonora de amores, de política, de espiritualidade e de tudo que existe entre o céu e a terra

Por Rívison Batista / Cotidiano Alagoas

Renato Russo faleceu em 11 de outubro de 1996 – Foto: Reprodução

Em 11 de outubro de 1996, o Brasil silenciou com a notícia da partida precoce de Renato Manfredini Júnior, o Renato Russo, aos 36 anos de idade. Mas a construção do poeta começou anos antes, na Brasília do final da década de 1970. Após a dissolução do Aborto Elétrico, lendário grupo do punk candango, Renato passou por um período introspectivo conhecido como a fase do “Trovador Solitário”. No violão, ele compôs grande parte das crônicas urbanas e existenciais que viriam a moldar o rock nacional, verdadeiros hinos que transcendem gerações.

O nascimento da Legião e a conquista do país

Em 1982, ao lado do baterista Marcelo Bonfá, Renato fundou a Legião Urbana. Com a chegada de Dado Villa-Lobos na guitarra e, posteriormente, de Renato Rocha no baixo, a formação se consolidou e assinou com a gravadora EMI. Os primeiros discos, Legião Urbana (1985), Dois (1986) e Que País É Este (1987), catapultaram o quarteto ao topo da cena musical brasileira. A banda uniu a urgência da sonoridade pós-punk à sensibilidade de letras profundas, tornando-se porta-voz de toda uma juventude sedenta por expressão.

Redenção, angústias e maturidade musical

À medida que os anos 1990 se aproximavam, a Legião Urbana amadurecia diante dos olhos do público. O álbum As Quatro Estações (1989) trouxe reflexões espirituais, amorosas e humanas de rara beleza. Canções como Pais e Filhos e Há Tempos alcançaram o topo das paradas no Brasil todo. Já nos anos 1990, álbuns marcados por temas mais sombrios e confessionais, como V (1991), O Descobrimento do Brasil (1993) e A Tempestade (1996) mostravam letras mais intimistas.

Renato lidava abertamente em suas poesias com suas dores, batalhas contra dependências, buscas por afeto e o enfrentamento de sua própria saúde, construindo um elo de empatia e verdade visceral com seus ouvintes.

O legado eterno na cultura brasileira

Três décadas após o adeus do poético líder da Legião Urbana, sua voz e suas palavras permanecem inacreditavelmente vivas e atuais. Renato Russo não foi apenas um frontman de rock; foi um cronista social e um filósofo do cotidiano brasileiro. Suas canções continuam ecoando em reuniões de amigos, no rádio e no imaginário coletivo de novas gerações, comprovando que, embora o tempo passe, “temos todo o tempo do mundo”.

15 músicas, 15 histórias

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1. Será

Lançada no álbum de estreia (Legião Urbana, 1985), “Será” foi o primeiro grande cartão de visitas da banda nas rádios. Nascida sob a forte influência do pós-punk britânico, a canção expressava o clima de incerteza da juventude brasileira no contexto da Redemocratização. Tornou-se um clássico instantâneo e hino de libertação pessoal e política.

2. Geração Coca-Cola

Uma das composições mais emblemáticas da fase do Aborto Elétrico, gravada no primeiro disco da Legião em 1985. Escrita por Renato quando ele tinha cerca de 18 anos, a letra irônica critica a influência da cultura norte-americana e o consumismo sobre os jovens criados durante a ditadura militar.

3. Eduardo e Mônica

Presente no álbum Dois (1986), esta narrativa em forma de canção foi criada por Renato na época do “Trovador Solitário”. A história do casal improvável que se apaixona apesar de todas as diferenças culturais e de idade tornou-se um dos maiores sucessos da história da MPB e inspirou, décadas depois, uma adaptação cinematográfica.

4. Tempo Perdido

Também do álbum Dois (1986), “Tempo Perdido” é amplamente considerada uma das obras-primas de Renato Russo. Com seu inconfundível dedilhado de guitarra na introdução, a faixa traz reflexões profundas sobre a juventude, a passagem do tempo e a mortalidade, eternizando versos como “somos tão jovens”.

5. “Índios”

Composta para fechar o disco Dois (1986), “Índios” utiliza o ponto de vista da ingenuidade e da pureza indígena para confrontar a ganância e o desencanto da civilização moderna. Com sua estrutura sem refrão tradicional e tom confessional crescendo até o ápice, a música se estabeleceu como uma das interpretações vocais mais marcantes da carreira de Renato.

6. Faroeste Caboclo

Com mais de nove minutos de duração e sem refrão, a saga de João de Santo Cristo foi escrita em 1979 e gravada no álbum Que País É Este (1987). A música conta a tragédia epicorromântica de um migrante baiano em Brasília, misturando temas de racismo, desigualdade e violência, e transformou-se num fenômeno popular sem precedentes no rádio. Também foi adaptada para o cinema.

7. Que País É Este

Faixa-título do álbum de 1987, foi composta originalmente em 1978 durante o período punk de Renato no Aborto Elétrico. A fúria e o protesto contra a corrupção e os escândalos políticos do Brasil mantiveram a canção com atualidade impressionante, tornando-se presença obrigatória nos shows e manifestações ao longo dos anos.

8. Há Tempos

Lançada em 1989 no álbum As Quatro Estações, “Há Tempos” estreou diretamente no topo das paradas das rádios brasileiras. Com letra densa e poética sobre depressão, relacionamentos e o convívio social (“Disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza”), a canção refletia a busca de Renato por equilíbrio.

9. Pais e Filhos

Um dos maiores sucessos de vendas do álbum As Quatro Estações (1989), a canção aborda com extrema sensibilidade as difíceis dinâmicas familiares, o suicídio e a incomprensão entre gerações. Renato costumava alertar nos shows que as pessoas prestassem atenção na letra profunda antes de cantá-la de forma festiva.

10. Meninos e Meninas

Também do álbum As Quatro Estações (1989), a faixa destaca-se pelo verso antológico “Eu gosto dos meninos e das meninas”. A canção marcou o momento em que Renato abordou com delicadeza e coragem a bissexualidade e a busca por afeto sem rótulos, tornando-se um marco de representatividade para a época.

11. Vento no Litoral

Destaque do sombrio e melancólico álbum V (1991), esta balada traz arranjos dramáticos de cordas e fala sobre luto, perda e separação. Foi inspirada em um término de relacionamento de Renato e no momento delicado de sua vida pessoal e de saúde.

12. Metal Contra as Nuvens

Com mais de 11 minutos e estrutura dividida em diferentes suítes progressivas, é a faixa mais longa da discografia da banda, presente no álbum V (1991). Com metáforas medievais sobre cavaleiros e dragões, a música simboliza as batalhas internas do compositor contra os fantasmas da dependência e da dor.

13. Perfeição

Lançada em O Descobrimento do Brasil (1993), “Perfeição” combina uma crítica feroz às mazelas institucionais e morais do Brasil com uma oração final por esperança e renovação. Renato escreveu a faixa durante um período de reabilitação e busca por sobriedade.

14. Giz

Uma das canções favoritas do próprio Renato Russo na discografia da Legião, também pertencente ao álbum O Descobrimento do Brasil (1993). A letra evoca lembranças da infância, nostalgia e a inocência perdida com o passar do tempo, sustentada por um arranjo acústico sereno e emocionante.

15. A Via Láctea

Integrando o álbum A Tempestade ou O Livro dos Dias (1996), lançado poucas semanas antes da morte de Renato, “A Via Láctea” traz o tom confessional de despedida que marca o disco. Gravada com vocais guias capturados enquanto o cantor já se encontrava debilitado, a música encerra com serenidade o testamento poético do líder legionário.

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