Da transferência das patentes da alemã Qimonda ao recente caso de espionagem industrial na belga BelGaN, o colapso de fabricantes no ocidente revela uma nova frente de disputa tecnológica global

Por Cotidiano Alagoas

Imagem: Cotidiano Alagoas

A falência de uma empresa de tecnologia raramente significa o fim de suas criações. No altamente estratégico setor de semicondutores, o encerramento de atividades corporativas frequentemente marca o início de uma disputa silenciosa pelo controle de patentes, dados de design e conhecimento acumulado ao longo de décadas. A recente investigação envolvendo a fabricante belga BelGaN ilustra como ativos de empresas ocidentais em liquidação se tornaram alvos prioritários na corrida por autossuficiência tecnológica.

Especializada na produção de semicondutores baseados em nitreto de galho, a BelGaN declarou falência em julho de 2024. A tecnologia de nitreto de galho é considerada extremamente valiosa devido à sua aplicação dupla, servindo tanto à indústria civil, em veículos elétricos, quanto a setores estratégicos como radares de satélites e equipamentos de guerra eletrônica. Contudo, durante a investigação de rotina sobre a liquidação da empresa, as autoridades belgas depararam-se com movimentações altamente atípicas.

Em maio de 2024, um pesquisador de 52 anos, com dupla nacionalidade belga e chinesa, foi detido no Aeroporto de Bruxelas quando tentava embarcar para Pequim. O profissional, que ocupava um cargo de alta liderança em pesquisa na BelGaN, é acusado de atuar simultaneamente como diretor da GanKool, uma empresa de semicondutores fundada na China poucos meses após a sua contratação na Bélgica. A GanKool contou com financiamento de um fundo de investimento chinês e desenvolvia exatamente os mesmos componentes. O executivo responde a acusações de espionagem industrial, participação em organização criminosa, apropriação indébita de ativos corporativos e vazamento ilegal de segredos comerciais.

O ponto central da investigação conduzida pelo Ministério Público da Bélgica indica que executivos e pesquisadores podem não ter trabalhado para recuperar a saúde financeira da fábrica. Em vez disso, suspeita-se de uma ação deliberada para transferir a propriedade intelectual e os segredos comerciais para a estrutura chinesa antes de permitir o colapso definitivo da unidade belga. As autoridades também buscam o ex-presidente executivo da BelGaN, de nacionalidade chinesa, suspeito de envolvimento no mesmo esquema.

A estratégia de aproveitar o momento de vulnerabilidade financeira de fabricantes europeus de chips não é inédita. O caso mais emblemático ocorreu com a alemã Qimonda, uma das gigantes globais de memórias DRAM, que declarou falência em 2009 no auge de uma intensa disputa no mercado internacional. Na ocasião, o acervo de patentes e projetos da Qimonda foi vendido por cerca de 30 milhões de euros para a empresa de gestão de propriedade intelectual Polaris Innovations.

A DRAM (Dynamic Random-Access Memory ou Memória Dinâmica de Acesso Aleatório) é o tipo mais comum de memória RAM utilizada como memória principal em computadores, smartphones e servidores. Sua função essencial é armazenar temporariamente os dados e aplicativos que o processador precisa acessar com extrema velocidade no momento em que estão sendo executados.

Buscando superar a escassez de tecnologia própria em memórias, a chinesa ChangXin Memory Technologies adquiriu do grupo Polaris o licenciamento de patentes originárias da Qimonda. A empresa chinesa também obteve cerca de 2,8 terabytes de documentação técnica confidencial e dados de design da extinta fábrica alemã, além de contratar um contingente expressivo de ex-pesquisadores que trabalhavam na Alemanha. Essa massa de conhecimento serviu como alicerce fundamental para a consolidação e rápida ascensão do setor de memórias DRAM na China.

Existe uma distinção clara entre a aquisição legal de patentes no caso da Qimonda e as alegações de vazamento ilícito investigadas na BelGaN. No entanto, a análise conjunta desses episódios evidencia que a soberania tecnológica de uma nação não depende apenas de manter fundições em operação. A proteção do ecossistema de semicondutores exige vigilância contínua sobre o destino de segredos industriais e registros de engenharia quando uma empresa fecha suas portas.

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