Colapso financeiro foi resultado de décadas de uma expansão agressiva que começou muito antes de as crises se tornarem manchetes

Por Cotidiano Alagoas

Mina 18, localizada no Mutange – Foto: Secom Maceió

Em 24 de agosto de 2026, o cenário corporativo brasileiro foi sacudido por um anúncio que parecia desafiar a lógica financeira tradicional. A Braskem, maior petroquímica da América Latina e uma das gigantes globais do setor, recorreu à Justiça para protocolar um pedido de recuperação extrajudicial, buscando renegociar uma dívida astronômica de aproximadamente 54 bilhões de reais. O movimento ocorreu apenas alguns dias após a companhia reportar um lucro líquido expressivo de 3,33 bilhões de reais no segundo trimestre daquele ano, criando um paradoxo onde uma empresa bilionariamente lucrativa se via sufocada por compromissos financeiros que não podia mais honrar nos termos originais.

Este colapso financeiro não foi um evento súbito, mas sim o resultado de décadas de uma expansão agressiva que começou muito antes de as crises se tornarem manchetes. A trajetória da Braskem remonta a 1979, quando o grupo Odebrecht ingressou no setor petroquímico através da compra de participações no Polo de Camaçari, na Bahia. Naquela época, o setor era dominado por uma forte presença estatal, mas as privatizações dos anos 1990 abriram o caminho para que a Odebrecht consolidasse ativos dispersos, culminando na fundação oficial da Braskem em agosto de 2002.

A empresa nasceu com a ambição clara de transformar o Brasil em uma potência petroquímica global, integrando operações de larga escala e mantendo uma relação simbiótica com a Petrobras. A estatal brasileira não era apenas uma acionista relevante, mas também a principal fornecedora de nafta, a matéria-prima essencial para a produção de resinas. Essa estrutura permitiu que a Braskem avançasse rapidamente, adquirindo a Politeno em 2006, ativos do grupo Ipiranga em 2007 e a Quattor em 2010, além de expandir suas fronteiras para os Estados Unidos, Alemanha e México.

A importância da Braskem na economia é quase onipresente, uma vez que ela produz os insumos básicos para milhares de outras indústrias. Seus polímeros, como o polietileno e o polipropileno, estão em tudo: de embalagens de alimentos e produtos hospitalares a peças automotivas e eletrodomésticos. Já o PVC produzido pela companhia é a espinha dorsal da construção civil em tubos e conexões. Por ser a base de uma cadeia imensa, qualquer instabilidade na Braskem gera ondas de choque que ultrapassam os limites de suas fábricas e atingem o consumo final.

No entanto, o gigantismo que trouxe poder também trouxe vulnerabilidades profundas que começaram a emergir com a Operação Lava-Jato em 2014. A investigação revelou que a petroquímica era peça central de um mecanismo de corrupção que envolvia pagamentos de propinas para garantir contratos vantajosos de nafta com a Petrobras. Em 2016, a Braskem admitiu essas práticas ilícitas em acordos com autoridades brasileiras, suíças e americanas, concordando em pagar quase um bilhão de dólares em multas, o que manchou sua reputação e abalou sua estrutura financeira.

A crise da controladora Odebrecht, que passou a se chamar Novonor, agravou a situação ao colocar as ações da Braskem como garantia para dívidas bancárias. Isso criou um limbo societário que durou anos, com diversos interessados nacionais e internacionais avaliando a compra da empresa sem que nenhum negócio fosse concretizado. Enquanto o comando da companhia permanecia incerto e as ações estavam presas aos credores da Novonor, um desastre ambiental sem precedentes em Maceió começou a cobrar seu preço humano e financeiro.

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Comunidade dos Flexais ficou totalmente isolada após a desocupação dos bairros próximos – Reprodução

O caso de Maceió é, sem dúvida, o capítulo mais dramático e complexo da história da Braskem. A exploração de salgema, iniciada décadas antes na capital alagoana, levou ao afundamento do solo em cinco bairros: Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol.

No início de 2018, um tremor de terra assustou os moradores da capital alagoana. Rachaduras massivas eram visíveis em diversos prédios, como no bairro do Pinheiro, por exemplo, sem que os moradores suspeitassem que estavam diante de um desastre. Em 2019 um relatório do Serviço Geológico do Brasil confirmou a relação direta entre a atividade de mineração da Braskem e a instabilidade geológica da região.

O impacto social foi devastador, resultando no deslocamento forçado de cerca de 55 mil pessoas e transformando bairros vibrantes em cidades fantasmas. Escolas, hospitais, igrejas e milhares de residências foram abandonados, destruindo o tecido social e a história de gerações de moradores. O desastre ambiental em Maceió não foi apenas uma tragédia humana, mas também se tornou um passivo financeiro colossal para a empresa, com provisões para indenizações e reparações que ultrapassaram a marca de 18 bilhões de reais.

A situação em Alagoas escalou drasticamente no final de 2023, quando a mina número 18, localizada no bairro do Mutange, sofreu um rompimento parcial sob as águas da Lagoa Mundaú. O evento atraiu atenção internacional e intensificou a pressão jurídica sobre a companhia. Embora a Braskem sustente que mantém seus compromissos de reparação e que os acordos de compensação estão avançando, o Ministério Público e grupos de vítimas continuam a questionar a suficiência dos valores e a abrangência dos danos morais e ambientais causados.

Somado ao desastre geológico, o mercado petroquímico global entrou em um ciclo de baixa severo entre 2024 e 2025. O excesso de oferta, vindo principalmente da China e dos Estados Unidos, reduziu drasticamente as margens de lucro do setor. Para uma empresa do tamanho da Braskem, com custos operacionais fixos elevados e uma dívida massiva em dólar, a redução na diferença entre o preço de venda e o custo da matéria-prima foi fatal para o fluxo de caixa.

Em 2025, a situação financeira atingiu um ponto crítico com a queima de quase 6 bilhões de reais em caixa e um patrimônio líquido que se tornou negativo. Auditorias independentes começaram a registrar incertezas sobre a continuidade operacional da companhia, sinalizando que a gigante estava ficando sem oxigênio financeiro. O problema não era a falta de vendas ou de relevância de seus produtos, mas sim o acúmulo de compromissos que superavam sua capacidade imediata de pagamento.

A entrada da IG4 Capital em 2026, assumindo o controle da participação que pertencia à Novonor, trouxe uma nova esperança de reorganização. Com a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, a nova estrutura de comando buscou enfrentar a montanha de obrigações que somavam mais de 10 bilhões de dólares em curto e médio prazo. No entanto, trocar o comando não eliminou as dívidas acumuladas durante a expansão internacional e as crises anteriores.

O pedido de recuperação extrajudicial em agosto de 2026 foi a ferramenta jurídica escolhida para tentar evitar o colapso total. Diferente de uma falência, essa medida permite que a empresa continue operando enquanto negocia com seus credores sob a proteção da justiça, evitando que ativos essenciais sejam bloqueados ou leiloados de forma desordenada. É uma tentativa de ganhar tempo para que o mercado petroquímico se recupere e para que a nova gestão consiga reestruturar o balanço.

O Caso Braskem serve como um estudo sobre os limites do crescimento corporativo e os riscos da dependência de relações políticas e subsídios. A empresa que nasceu para ser o orgulho da indústria nacional descobriu que o tamanho, embora confira poder de mercado, também pode se tornar uma armadilha quando a gestão financeira e a responsabilidade socioambiental são negligenciadas. A dívida de 54 bilhões de reais é o ponto de convergência de erros estratégicos, corrupção e um dos maiores crimes ambientais urbanos do mundo.

Atualmente, o futuro da companhia depende da capacidade de equilibrar a operação de suas fábricas com a necessidade urgente de indenizar as vítimas em Maceió e satisfazer os credores internacionais. A Braskem continua sendo estratégica para a indústria brasileira, abastecendo setores vitais, mas sua liberdade de decisão está agora severamente limitada. O desfecho desta crise definirá não apenas o destino de uma empresa, mas também os padrões de responsabilidade e governança que serão exigidos das grandes corporações no Brasil daqui em diante.

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