Visitas permitiram conhecer resultados das iniciativas, ouvir beneficiários e identificar desafios para ampliar o alcance das ações
Por assessoria

O Ministério Público Federal (MPF) participou, na última semana, de visitas de monitoramento aos projetos do Programa Nosso Chão, Nossa História, voltado à reparação dos danos extrapatrimoniais provocados pelo desastre da indústria petroquímica, causado pela Braskem, em Maceió. As atividades permitiram conhecer resultados concretos das iniciativas, ouvir as pessoas beneficiadas e identificar desafios e ajustes necessários à continuidade das ações.
As atividades de apresentação são realizadas trimestralmente e conduzidas pelo Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops), com a participação de especialistas do Programa, representantes do MPF e integrantes do Comitê Gestor de Danos Extrapatrimoniais (CGDE). Formado por representantes da sociedade civil e de órgãos públicos, o Comitê desenvolve voluntariamente o trabalho de seleção e acompanhamento dos projetos.
As procuradoras da República Roberta Bomfim, Julia Cadete e Juliana Câmara acompanharam projetos nas áreas de memória, cultura, saúde mental, geração de renda, inclusão social e fortalecimento comunitário. As visitas alcançaram as iniciativas “Territórios da Memória”, “Reparar é lembrar, cuidar e transformar”, “Transbordar entre fios e afetos”, “Saúde Mental, Nossa Prioridade”, “Nosso Chão, Nossa História – Geração de Renda e Empreendedorismo” e “Cuidando da Vida, Resgatando Alegria”, além do projeto de comunicação desenvolvido pela Mídia Caeté.
Memória e pertencimento
No campo da cultura e da preservação da memória, o projeto “Territórios da Memória”, desenvolvido pela Associação Teatral Joana Gajuru, busca fortalecer as práticas culturais dos bairros atingidos, estimular novas expressões artísticas e contribuir para a preservação da identidade comunitária.
Já o projeto “Solo Caeté”, da Mídia Caeté, prevê a produção de podcasts, revista e site, além da capacitação de jovens e da implantação de um estúdio destinado ao uso da comunidade atingida.
Cuidado e reconstrução de vínculos
No Instituto Jarede Viana, o projeto “Transbordar entre fios e afetos” mantém oito grupos no Flexal, Bom Parto, Santo Amaro e na Escola Estadual Professor Guedes de Miranda, além de um grupo de marisqueiras. Na primeira etapa, foram atendidas 313 pessoas.
Os relatos apresentados durante a visita mostraram mudanças que vão além dos números. Pessoas antes isoladas voltaram a participar de atividades coletivas e a compartilhar suas experiências. Uma das beneficiárias, que chegou ao projeto com dificuldade para se expressar, tornou-se voluntária e passou a falar em público.
Para Roberta Bomfim, a participação de profissionais oriundos dos próprios bairros atingidos é um dos diferenciais da iniciativa. “Esses profissionais conhecem de perto a realidade das comunidades. Ao cuidarem de outras pessoas, também encontram caminhos para elaborar suas experiências e reconstruir vínculos com o território”, afirmou.
Pesquisa e atenção à saúde mental
O projeto “Saúde Mental, Nossa Prioridade”, executado pela Vertex, investiga os efeitos diretos e indiretos do desastre sobre a saúde mental da população atingida. Coordenada pela professora Cícera da Silva, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a pesquisa reúne abordagens quantitativas, qualitativas e interseccionais.
Entre os avanços apresentados está a criação de um núcleo dedicado à pesquisa sobre desastres. A equipe também relatou desafios, como a localização das pessoas realocadas e a ampliação da participação de adolescentes no estudo.
A saúde mental de crianças e adolescentes é o foco do projeto “Cuidando da Vida, Resgatando Alegria”, desenvolvido pela Associação Comunitária da Criança e do Adolescente de Chã de Bebedouro. A iniciativa oferece ações terapêuticas, preventivas e comunitárias para o público atingido pelo desastre.
“O grande valor desse acompanhamento é dar um sentido ainda mais concreto ao nosso trabalho. É muito gratificante conhecer as pessoas e perceber diretamente os efeitos que cada projeto produz em suas vidas”, destacou Juliana Câmara.
Autonomia e geração de renda
Na área de geração de renda, o projeto executado pelo Impact Hub oferece capacitação e apoio técnico e financeiro a empreendedoras e empreendedores formais e informais prejudicados pela realocação. Duas turmas já foram concluídas, totalizando 100 pessoas beneficiadas, e uma nova turma deverá ser lançada.
Entre os resultados apresentados está o de um empreendedor que ampliou a venda de alimentos e passou a trabalhar com serviço de buffet. Outro participante, após perder a clientela do comércio de acessórios para celulares, reorganizou sua atividade e começou a produzir bolos.
A metodologia do projeto também foi ajustada à realidade encontrada durante a execução. Os participantes foram divididos conforme o nível de desenvolvimento de seus negócios, permitindo um atendimento mais adequado às diferentes necessidades.
“As visitas mostram como os projetos estão se adaptando à realidade e produzindo resultados na vida das pessoas. Esse contato também permite identificar dificuldades e construir os ajustes necessários para que a reparação alcance melhor quem foi atingido”, explicou Julia Cadete.
Monitoramento contínuo
Além dos avanços, o acompanhamento identificou desafios como a necessidade de continuidade das ações, as lacunas na rede de assistência psicossocial, a dificuldade de localização das pessoas realocadas e a coincidência de beneficiários entre alguns projetos. As informações deverão orientar o aperfeiçoamento das iniciativas e uma maior articulação entre os parceiros.
O Programa Nosso Chão, Nossa História integra o eixo de reparação dos danos extrapatrimoniais e apoia iniciativas voltadas à reconstrução de vínculos, à preservação das memórias, ao cuidado com a saúde mental, ao fortalecimento das organizações comunitárias e à criação de novas possibilidades de autonomia para a população atingida pelo desastre provocado pela Braskem.









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